Professores, de heróis a coitadinhos


Gostei deste artigo e repasso integralmente!

A educação só não é boa porque o governo não lhes paga mais, não dá recursos para a área. Pelo menos é o que dizem as pesquisas eleitorais

Pesquisas podem ser muito úteis para estimular essa esquecida arte do debate que, quando bem intencionado, leva a avanços na sociedade. Recente enquete elaborada para um dos candidatos à Presidência da República revela informações inestimáveis sobre a percepção dos brasileiros a respeito de questões que os preocupam.

O cidadão-eleitor tem muitas prioridades no seu cotidiano. Dentre as várias premências que o afligem, destacam-se preocupações com (in)segurança, (i)mobilidade urbana, acesso à saúde, medo de desemprego e inflação. Justiça nem entra na lista — é artigo de luxo. O interessante é que educação não está no topo dessas prioridades. Nem o fato de haver mais de um milhão de vagas disponíveis para empregos qualificados sugere que há algo profundamente errado com a educação brasileira. Será que a árvore está impedindo de se ver a floresta?

Há outras curiosidades, ao aprofundarmos a leitura da mencionada pesquisa. A percepção da população sobre os profissionais de diferentes áreas é uma delas. Vejamos o caso da saúde: a população consultada está revoltada com o mau atendimento dos médicos — e não apenas com a falta de atendimento ou a fila de espera para marcar consultas.

Talvez porque tenham salários acima da média, médicos são percebidos como pessoas rudes, pouco atenciosas e que atendem mal. No caso da segurança, os policiais encarnam o papel de violentos e são considerados pouco confiáveis.

E como ficam os professores? Que imagem se tem deles? Aqui afloram percepções curiosas. Os professores são considerados vítimas, uns coitadinhos. A educação só não é boa porque o governo não lhes paga mais, não dá recursos para a área. Pelo menos é o que dizem as pesquisas eleitorais. Engraçado o nosso povo. Seria natural esperar sentimento comum em relação a servidores públicos, que nunca foram reconhecidos por sua amabilidade e atenção com o público. Mas não é o que ocorre.

Antes, professores eram heróis, dedicados, magistério era vocação. Aos poucos, foram se tornando vítimas. Como? O primeiro passo foi dado pelos próprios sindicatos dos professores. Enquanto na área de saúde o termo “profissional da saúde” é sinônimo de valorização da profissão, na educação as corporações e sindicatos usam outra lógica e reconhecem seu pessoal como “trabalhadores”. De heróis passaram a vítimas, pois no discurso da sociedade de classes a palavra “trabalhador” no geral é usada no contexto de “explorado” pelo patrão. Daí foi um pulo para serem considerados os coitadinhos.

Professores não são coitadinhos nem vítimas. A esmagadora maioria é gente trabalhadora e dedicada. Os professores se orgulham da profissão que escolheram, embora nem sempre estejam preparados de forma adequada para um exercício profissional de alto nível. Reduzir professores à condição de coitadinhos não ajuda a promover a educação. O que temos de fazer é resgatar o debate educacional das garras do corporativismo. A campanha eleitoral é um bom momento para isso.

Qualquer reforma educacional profunda — e o Brasil ainda não começou a sua — só começa quando um país estabelece políticas capazes de atrair e manter pessoas altamente qualificadas no magistério. É preciso que o eleitor preste atenção nas propostas dos três candidatos mais bem posicionados, identificando quem promove o discurso do coitadinho e quem se mobiliza para oferecer uma nova carreira à nova geração de professores. Isso é o que garantirá o início de uma profunda reforma na educação brasileira.

João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto Alfa e Beto

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/professores-de-herois-coitadinhos-14060482#ixzz3EWh39rI7

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2 respostas »

  1. Com certeza a teoria do coitadinho não se aplica, e os significados implícitos em “trabalhadores” também são parte do problema de uma educação deficiente. A discussão tem que ser feita, e os parâmetros sugeridos pelo texto são legais, mas………milhares de pessoas, e classes de profissionais (trabalhadores, colaboradores, o que motivar mais no momento ou tiver na moda) são muito mal remunerados, e vivendo numa sociedade de consumo e baseada em valores monetários, é o salário que indica o nível de dedicação, motivação, capacidade, importância, etc etc…………logo não podemos esperar (ou exigir) que alguém faça mais do que o seu salário reflete, professor ou não…………

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    • Ter salário baixo não justifica não fazer o que lhe é devido. O Problema não é só o salário, que em nosso caso é bem baixo, mas é o comprometimento. Conheço Professores que ganham menos na rede particular e nessa trabalham. Na pública ganham mais ( aqui no Rio de Janeiro é assim) e fazem de tudo em sala, menos ensinar! Temos que parar com isso.
      Outra coisa é mostrar a imagem do Professor como coitado, como mendigo, como digno de pena… Já desci de um Taxi, que o Taxista me deu os pésames ao saber da minha Profissão. Ora bolas… Isso pra mim é desrespeito!
      Beijos

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Andrea Barreto

Andrea Barreto

Sou professora de Ciências e de Biologia em Escolas da Rede Municipal e Particular do Rio de Janeiro ( Brasil). Elemento de equipe da Educopédia / Rioeduca ( Secretaria Municipal de Educação - RJ)

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