“A Escola da Dona Pedagoga!”


A escola do interior do Piauí que conseguiu bater o IDEB de 2021 ( não digitei errado é isso 2021).

A diretora e sua equipe abriram as portas para os pais, aumentaram a auto estima e “fazemos avaliações mensais. Quando percebemos que um menino está com dificuldades, a intervenção é imediata”, diz Iraneide ( diretora pedagógica). 

Veja aqui a matéria que está na PORVIR:

A escola da Dona Pedagoga

A escola municipal Bom Princípio, na zona rural do Piauí, conseguiu bater a meta de 2021 no Ideb abrindo as portas para os pais

Essa matéria já começa com o título um pouco errado. A escola municipalBom Princípio, no Piauí, não é só da Dona Pedagoga, a diretora pedagógica Iraneide Santana, uma mulher de riso fácil e gestos carinhosos. É da Aparecida, da Maria, do João e de mais outras 300 crianças do ensino fundamental 1, que Dona Pedagoga chama de “abençoados”, uma vintena de professores e funcionários e das famílias, ou seja, é de todo mundo. E foi assim, sendo uma escola de todo mundo, que essa instituição, localizada na zona rural de Teresina, sem pátio, sem biblioteca e sem laboratório de informática, se tornou uma das melhores escolas públicas do 1o ao 5oano do país.

“Às vezes, a mãe chega aqui dizendo que tem vontade de matar aquele pestinha. Aí eu digo que ter um abençoado desse na vida não é para qualquer um. Pego um trabalho do menino e mostro: ‘olha que bonito que ele fez’. A mãe diz: ‘mas foi ele que fez mesmo, Dona Pedagoga?’”, narra Iraneide sobre a forma como recebe os pais. A escola fica tão longe que professores e alunos só conseguem chegar juntos, de ônibus, num trajeto que pode durar até uma hora e meia. Mesmo assim, o fluxo de gente é contínuo. “Muitas mães vão ali e contam seus problemas pessoais, com os maridos. A gente vira psicóloga, mas é bom sinal. Sinal de que elas confiam na escola”, diz a educadora, que entrou na Bom Princípio em 2007.

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Naquele ano, o Ideb da escola foi 4,4 e não diferia muito da média das escolas das redondezas. “Os pais não frequentavam a escola, se eximiam da responsabilidade de educar”, diz Iraneide. A escola começou então a fazer um trabalho de criar espaços de participação. Como voluntários, os pais passaram, pouco a pouco, a ajudar na manutenção e na limpeza da escola. Como contrapartida, a escola passou também a oferecer atividades para que eles se sentissem parte daquela comunidade escolar: oficinas e cursos escolhidos pelos pais, aula de ginástica. “Muitos deles são da zona rural e pedem cursos com os quais eles possam ganhar um dinheirinho depois. Já ensinamos a fazer caixa em oficina de artesanato, demos um curso de cabelereiro”, disse ela.

Mas a principal forma de aproximação, afirma a Iraneide, foi quando as mães passaram a entrar em sala de aula para ajudar no dever de casa, no contraturno. Isso fez com que em casa a supervisão também aumentasse. “Temos mães que não sabem ler, mas, mesmo assim, conferem o dever de casa. Fazendo isso, elas participam, da forma que podem, mas participam.” De acordo com o questionário socioeconômico da Prova Brasil 2011, 11% das mães das crianças do 5o ano não sabiam ler, 7% das crianças trabalhavam e 75% não tinham computador em casa – dados que dão uma noção bem clara de como vivem as famílias assistidas na Bom Princípio.

Hoje, a preocupação em dar satisfação à escola é tão grande, conta Iraneide, que os pais se desdobram para avisar quando os filhos não podem ir: mandam recado por vizinhos, vão até orelhões, colocam crédito de propósito no celular. Um dia, lembra ela, um pai chegou com o filho no colo. Ele estava com catapora. “Olhe, Dona Pedagoga, o menino está doente”, e levantou a criança para a educadora ver. “Se ele está doente, não pode ficar aqui nesse calor”, respondeu ela. “Mas como é que a Dona Pedagoga ia saber se eu não consegui avisar?”, disse o pai, que foi orientado a levar a criança para casa e só deixá-lo voltar quando estivesse bom.

Assim como os pais são bem recebidos, as crianças também têm seu momento para se sentirem bem-vindos. Todos os dias, depois do périplo do ônibus, as crianças passam pela acolhida, momento em que os bons exemplos são publicamente elogiados, os aniversariantes são parabenizados e o anjo da guarda, acionado. “Fazemos uma oração de proteção, cada um na sua religião”, diz Iraneide, que aproveita essas situações também para lembrar avisos e, quando preciso, puxar a orelha de quem não tem se comportado bem.

A Bom Princípio também passou a fazer parte do Mais Educação, que transforma as unidades em escolas em período integral. Com isso, as crianças passam mais tempo na escola. Aquelas com dificuldades assistem a aulas de reforço e as que chegam ao 3o ano sem estarem adequadamente alfabetizados participam de um programa que as ajuda a recuperar o tempo perdido. “Fazemos avaliações mensais. Quando percebemos que um menino está com dificuldades, a intervenção é imediata”, diz Iraneide.

Com todas essas estratégias, a Bom Princípio conquistou 6,7 no Ideb de 2009, e 7,7 em 2011, ultrapassando a meta projetada para 2021 pelo MEC para a escola. Na Prova Brasil, que compõe o Ideb, 91% das crianças da escola demostraram saber o adequado em português e 89% em matemática. Apenas em termos de comparação, a média do Piauí é 24% de aprendizagem adequada em português e 18% em matemática. Fora as avaliações federais, foram prêmios que não acabaram mais: concursos de melhores alfabetizadores, de gestão e até de redação, ganho pelos alunos.

Os resultados atraíram os holofotes para a escola e acabou chamando a atenção do Niase (Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa), da UFSCar, e do Instituto Natura. A escola foi uma das experiências exitosas avaliadas em uma extensa pesquisa sobre comunidades de aprendizagem. Roseli de Mello, responsável pela pesquisa, analisou a eficácia, a equidade e a coesão social da instituição e saiu de lá muito bem impressionada. “Eles traduzem de uma maneira muito simples o que teóricos gastam muitas páginas para explicar. [Jurgen] Habermas tem um tratado para dizer aquilo que eles fazem na acolhida, quando os educadores dizem que não pode reclamar nem falar mal do colega”, diz Roseli.

Entre os pontos de sucesso da escola, Roseli aponta que a própria comunidade identifica com fundamentais o cuidado com o conteúdo – aqui incluídas todas as estratégias para fazer com que todos os alunos acompanhem as aulas adequadamente – e a participação de todos na escola. Por outro lado, diz Roseli, os pais lamentaram o fato de a infraestrutura da escola oferecer poucos recursos aos alunos. “Eu dizia para eles: se a condição da escola é tão ruim assim, como é que vocês me explicam o resultado de vocês?”, contou a professora, que ouviu uma resposta unânime: “Recurso material é fundamental, mas, sem gente, não tem educação”

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Andrea Barreto

Andrea Barreto

Sou professora de Ciências e de Biologia em Escolas da Rede Municipal e Particular do Rio de Janeiro ( Brasil). Elemento de equipe da Educopédia / Rioeduca ( Secretaria Municipal de Educação - RJ)

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