Vinte anos e alguns meses depois…


Era abril de 1993, quando assumi as primeiras turmas oficialmente. Já tinha feito vários estágios, dado muitas aulas… mas uma turma ( ou várias) que podia chamar de minha(s)… era a primeira vez.

Parecia um deles. Jovem, recém saída da Universidade, me misturava à trupe com facilidade. Era tão fácil que uma vez minha primeira diretora me mandou entrar em sala falando: ” Já disse que não quero aluna andando no corredor…” Quando me virei, ela morreu de vergonha e me pediu pra não ir mais de camiseta branca e calça jeans.

No início, era bem fácil justificar a facilidade que eu tinha com as turmas. Eles amavam as minhas aulas e os Professores mais velhos falavam que a razão estava em ser jovem, eu tinha todo gás, estava maravilhada, não sabia ” o que vinha pela frente…” Invariavelmente, as turmas iam bem em Ciências.

Ouvi muito o discurso: ” quando você tiver 15 anos de sala de aula, vai ser bem diferente!” Bom…. vinte anos  e alguns meses depois, acho que ganhei experiência mas não perdi o gás. Continuo sendo acusada de ” facilitar muito” e por isso ” os alunos vão bem na matéria e gostam de Ciências/ Biologia!” Continuam falando que Ciências/ Biologia é muito fácil, por isso as notas/ conceitos altos. Continua o discurso do ” com você todos os alunos se saem bem porque é bem fácil!”

Ninguém mais pode colocar a culpa na minha pouca prática ou no meu gás por ser muito nova. Então a culpa cai em mim mesmo. Por um lado acho legal ( e graça): é muito bom saber que continuo com  quase o mesmo gás. É maravilhoso ver que ainda encanto meus alunos com minha matéria. No entanto, tem coisas que ainda me irritam: Dizer que eu facilito muito ( quase no sentido do dar mole)! Ou dizer que minha matéria é bem fácil!

Fácil não é. A quantidade de termos que tenho que ensinar é quase que um transtorno. Em um ano de escolaridade ( no 7o ano), o aluno quase que triplica os termos científicos que tem que saber. Isso não é nada fácil. Facilito sim! Faço o máximo para mostrar que aquilo não é um bicho de sete cabeças. Tento, na medida do possível, contextualizar e trazer novidades que os alunos gostam para a sala de aula. Isso dá um enorme trabalho. Leio, me atualizo constantemente para isso. É fácil, porque ( sem falsa modéstia) existe uma super profissional no meio do processo de ensino.

Agora, insinuar que dou mole!!! Ando cansada disso. No início, isso me desesperava. Depois, passei a achar graça. Agora, ” tô” sem paciência para isso. Será que montar provas a partir do 7o ano com questões do vestibular é dar mole? Só para dar um exemplo.

Eu sei que no final é isso: sou mau exemplo. Sou, ainda, a Professora que os alunos gostam e que mostra que é possível passar o conteúdo, ter bons resultados, sem ser terrorista. Serei pra sempre isso: O mau exemplo que não pode ser seguido.

Perdoe-me o desabafo!

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Andrea Barreto

Andrea Barreto

Sou professora de Ciências e de Biologia em Escolas da Rede Municipal e Particular do Rio de Janeiro ( Brasil). Elemento de equipe da Educopédia / Rioeduca ( Secretaria Municipal de Educação - RJ)

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