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Sobre Leitura …( Para Prof.)

livros3.jpgRecebi um texto, na verdade uma crônica, do Affonso Romano de Sant’ Ana ótima. Fala sobre a Biblioteca de Alexandria e o poder da Informação . É longo ! Mas você tem que ler ! BOA LEITURA !

FASCINIO E PODER DE ALEXANDRIA

Affonso Romano de Sant’ Anna – Retirado do Livro “Cegueira e o Saber “


Há uns oito anos fui ao Egito. Claro que havia camelos, pirâmides, mercados, muralhas e especiarias no caminho. Mas o objetivo, além de descer ou subir o rio Nilo, era conhecer e estabelecer convênios com a nova Biblioteca de Alexandria, que estava começando a ser reconstruída dentro de um projeto internacional. Acabei mandando caixotes e caixotes de livros sobre cultura brasileira- duplicatas do acervo da nossa Biblioteca Nacional, para que no espaço daquela mítica biblioteca houvesse algo sobre nosso mitificado país.

Estou revendo, recuperando, reinventando algumas cenas dessa viagem feita sob o comando de Francisco Rezek, então ministro das Relações Exteriores, enquanto leio esse “O poder das bibliotecas” ,que a UFRJ Editora acaba de lançar. Uma coisa é você saber ,ou ler nas enciclopédias, que na cidade fundada por Alexandre – o Grande(332.a.C), a dinastia dos Ptolomeus criou a maior biblioteca da antiguidade que chegou a ter 500 mil volumes; outra coisa é você estar por ali e participar, mais de dois mil anos depois com um minúsculo gesto para que a biblioteca, destruída por Júlio César, reconstruída por Marco Antônio, destruída de novo por incêndios e ataques de vários generais pudesse enfim reerguer-se.

Reerguer-se na passagem do século XX para o XXI quando o advento da informática e do livro eletrônico sugeriu aos incautos e alarmados, que o livro ia acabar. Sintomaticamente, nunca se construiram tantas bibliotecas quanto nos últimos anos.

Invulgar a estratégia utilizada pelos Ptolomeus para instituir a biblioteca de Alexandria. Queriam reunir todo o saber jamais escrito. Por isto, os navios de passagem pelo porto da cidade (onde erguia-se o primeiro

farol construído na história), eram retidos e seus livros confiscados para serem copiados . Era um tipo de empréstimo compulsório, pois guardavam o original e devolviam uma cópia ao proprietário. Graças a isto foi-se não só armazenando toda a cultura escrita conhecida, mas foi-se traduzindo para o grego a sabedoria esparsa nas chamadas “línguas bárbaras”.

Considerando que Alexandria pretendia ser um microcosmos de tudo o que estava inscrito no macrocosmos, Christian Jacob lembra que havia um jogo de espelhos entre a biblioteca e a cidade, como se a planta da cidade correspondesse ao saber cósmico. Por isto, os cinco bairros da cidade eram nomeados com as primeiras letras do alfabeto grego:-Alfa, Beta, Gama, Delta,Epsilon. Letras que estavam nas palavras Alexandre Basileus Genos Dios Ektisen (polin amiméton) , “O Rei Alexandre, da raça de Zeus fundou (uma cidade inimitável)”.

Ter todo o saber reunido num só lugar era também ter todo o poder a partir de um só lugar.

Ter a informação. Ter o poder.

Vejam só. Um dia estava eu na minha sala na Biblioteca Nacional, quando sou notificado que a Biblioteca de Washington havia oferecido e devolvido dezenas de caixotes contendo folhetos, panfletos e livros sobre o

que chamamos cultura alternativa e/ou subversiva. Os americanos haviam recolhido Brasil afora, copiado e registrado em Washington milhares de papéis sobre luta armada, direitos femininos, reivindicação de homossexuais e negros, luta operária, jornais literários e agora estavam nos dando de presente parte de nossa memória dos anos 60. Aqui mal se conseguia que as editoras cumprissem a lei de depósito legal, mandando um exemplar de seus livros editados e os americanos conseguiam coletar papeluchos despregados de quadros de avisos das universidades ou lançados nas ruas pelos sindicatos.

Era de pasmar.

Desse fato, que se repetiu várias vezes, com várias e generosas remessas, há muito o que extrair. A primeira coisa é óbvia: os americanos aprenderam a lição de Alexandre e dos Ptolomeus: quando se quer estabelecer um império é necessário um competente sistema de acúmulo de informações. Por isto, como os antigos gregos instalados no Egito que capturavam barcos, copiavam livros e devolviam as cópias, os americanos , com a tecnologia de hoje captam os acervos, copiam-nos e se dão ao luxo de devolver os originais.

Portanto, quando bilhões de pessoas em todo mundo ficam estateladas diante das telas, medusadas pelas premiações do Oscar, ou quando monarcas, ditadores e presidentes de todas as partes vão `a Washington para engraxar e beijar as botas texanas de Bush, isto é exemplo da eficácia do funcionamento da Biblioteca de Alexandria e de seus desdobramentos em CIA, Pentágono, Bolsa de Nova York, etc.

Uma vez estava eu na India. E na casa da adida cultural americana soube que a Biblioteca de Washington mantinha ali 110 funcionários só para coletar material escrito em cerca de 20 línguas usadas no país. Pensar em coletar o material em inglês na India já seria uma proeza. No entanto, interessava-lhes tudo o que estava sendo publicado.

Saber e poder. Poder e saber.

Nesse livro ” O poder das bibliotecas”, onde variados ensaístas abordam aspectos da vida e morte dos livros, há um instigante texto final elaborado por dois artistas-Anne e Patrick Poirier. É arte conceitual. É um

conto. É um relatório sobre uma imaginária e fabulosa biblioteca-“Mnemósine”, que a exemplo de Alexandria, de Washington ou da Très Grande Bibliothèque francesa, quer reunir todo o saber. Mas parece também a descrição de um mausoléu, de algo sepultado no passado.

Este o desafio: reinventar a biblioteca. Ela pode ser destruída por Júlio César, pela incúria e pela ociosidade. Mas potencializada, pode ser como aquele farol de duplo significado , em Alexandria, que orientava os navegantes na desletrada escuridão.

 

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